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[POESIA. VENEZUELA. 2026.]
Pousam à vez os estorninhos. Vêm beber a água que lhes trago. Uns atrás dos outros chapinham o pátio. Quem terá, porém, chapinhado no começo do mundo tais cabeças? Pergunto-me por onde dormem, que folhagem seca os embala .. para amanhã? E penso no que dirias sobre a inarmónica façanha do passarinho urbano no rádio selvagem. “Desafinado, mas oportunamente vivo”. Ziu priu piu [1]. (Entre mim e as aves, os indivíduos astutos.) Não há como tu quem olhe da mata o cimo amplo a imagem preponderante das árvores ou a beleza chã das pererecas. Lembro-me como, pela perna traseira devolveste à serra imensa uma cria boba antes de beijar-me. Rias, era de noite, chovia tanto a luz falhou. Bebíamos cachaça, comíamos batatas. Fizemos amor. O mundo era lindo o bastante. Imaginei que te fosse amar pela vida toda. E amo. Não há como eu quem te conheça. Não há como tu quem me queira. Da revoada detém-se o que não ondula. Acaricio sem demora o pequeno crânio do estorninho. Amar um estorninho é uma coisa louca. .[1] “Assim como eu”. |
[POESIA. VENEZUELA. 2026.]
Traducción de Jesús Montoya Los estorninos se posan a la vez. Vienen a beber el agua que les traigo. Unos atrás de otros chapotean el patio. ¿Quién habrá, sin embargo, chapoteado al comienzo del mundo tales cabezas? Me pregunto ¿dónde duermen, qué follaje seco los balancea . hacia el mañana? Y pienso en lo que dirías sobre la inarmónica hazaña del pajarillo urbano en el radio salvaje. “Desafinado, mas oportunamente vivo”. Pi tri pi [1]. (Entre las aves y yo, los individuos astutos.) No hay como tú quien mire del monte la cima amplia la imagen preponderante de los árboles o la belleza llana de las ranas. Recuerdo cómo, por la pierna trasera devolviste a la sierra inmensa una cría boba . antes de besarme. Reías, era de noche, llovía tanto la luz falló. Bebíamos cachaza, comíamos papas. Hicimos el amor. El mundo era lindo en demasía. Imaginé que te fuese a amar toda la vida. Y te amo. No hay nadie que te conozca tanto como yo. No hay nadie que me quiera como tú. De la bandada se detiene lo que no se ondula. Acaricio sin demora el pequeño cráneo del estornino. Amar un estornino es una cosa loca. .[1] “Así como yo”. |
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[PÚBLICO. PORTUGAL. 2025.]
MAFARRICO 2+2 Mais do que iguarias, pitéus e outros paparichos — olha que caldo sem pão só no inferno o dão -- prometo-te, caso venhas, e virás, pois quem diabos não viria — olha que trabalho de menino é pouco quem não o aproveita é louco — guita. Carcanhol. Dindim. Bufunfa. Pila. Pilim. Trocados. E à luz dos caprichos que me digas, me assomarei a brigas para vingá-los. Terás casa, carro, amigos, negócio um lugar ao sol — trás trabalho, vem descanso -- e o que mais me peças. Espanholas? Suecas? Paz? Deus? Pão? Luz? Praia? O céu? Quem não tem cão caça com gato. Dignidade? Em terra, como essa abençoada, sempre é digno o que aporta. Abaixa pobre, a enxada e... Hump! Hump! Água? Vinho? Enxugo-te a cabeça? Rai-rai-rã; ta-ri-ri-rã... Huhá! Navegar é preciso, hou! viver não é preciso. Sabiá lá não canta, mas pardal encanta. Sobe, anjinho e sonha. Importa senão dar à vida o palpável. Ita! A cavalo dado não se olha a dente. Ita! À chegada agradece porque, ita! metade do pagar é o agradecer. Esquece mãe, pai, gente. Houlá! como te chamas benzinho? Houlá! como te chamas, miserável? [A ILHA DAS AFEIÇÕES. CÍRCULO DE POEMAS. BRASIL. 2023.] E ESTE PAÍS AONDE CHEGAM É IMAGINÁRIO porque há amores que são como países de imaginação e essencialmente porque as mulheres vivem longe uma da outra. A esta ilha, onde se fala o grande idioma dos passarinhos, chegam, como rouxinóis delicadas aéreas, desnudas e lindas. E fazem, sob cobertas e lençóis entre muitos beijinhos, promessas mudas e elevadas num tempo sem tempo, deus, escadas ou automóveis como duas Pirras sem Deucalião a arremessar os sonhos para trás, ou não mais que duas rainhas tortas. Cada partícula deste país novo é o país inteiro e aqui onde cachalotes flutuam num céu aquático e onde aos pinotes vêm atrevidos os pardais debicar o miolo ardente e suspenso dos medronhos não existem portas nem a falta batente do punho na matéria. A Ilha das Afeições não consta na Enciclopédia Planetária das Ilhas. E se constasse como grafariam os especialistas o testemunho das formigas, dos cedros e dos galiões? [RUÍDO MANIFESTO. BRASIL. 2021.] O GRANDE PROBLEMA DA POESIA Você certamente sabe por que Hefesto coxeava leu os lindos e airosos dóricos de Bión de Esmirna memorizou quantos graus fez a cabeça de Dido ao mover-se tristonha por entre os espectros, leu como não, os 34 cantos do Inferno, discutiu uma e outra vez, o propósito da gargalhada pública da doutrina cervantina, não passou um ano, um sem que reabrisse os idílios, recalcando, obstinado a importância dos clássicos, o que têm de clássico os clássicos, os gigantes e os génios, os semideuses e os prémios. Você certamente dedilhou na página o ritmo seco e galopante do verso futurista, gozando açulado, tal o bofetão na escuta, a métrica delirante. Urrrrà! Non più contatti con questa terra immonda! Declamou expressivamente antigos e modernos, alto para que escutassem a justeza da sua interpretação sorvida, como é hábito, na mais estudada análise escolar do país. E leu, claro, o país, berço de prodígios tão extraordinários, todos estes campos cheios de uma História imperial, esplendorosa e soberana. Esqueceu-se, porém, de questionar o conforto do nome de entortar-se, corpo anguloso, para entrar distintamente e de olhos abertos, no mundo todo. Sequer legitimou as doidas orgias do Palácio de Ítaca, o não tão digno mito do arado, ou a criatividade da disputa holográfica de Estesícoro. Tampouco quis saber o que sussurraram as mulheres, pilares intemporais do engenho, no silêncio ou contradisse o tempo linear, os bastidores do mérito a branquitude da escrita, quanto mais a própria escrita a forma e a vida, tão redonda como variada, tão farta como um tomate arremessado à órbita dos caretas. Você certamente não estudou a história dos trejeitos a ciência do desconhecimento, o difícil canto gestual que se lê no espaço e na escuridão, com a inteligência assombrosa e demorada, de quem perde e tropeça. E este é essencialmente o grande problema da poesia regrada, enfeite da nação e da narrativa, da raça simulada e da comitiva, cómoda no ofício, competente na beleza fácil, alheia à esfera natural, ao corisco e à cambada milenar que o assopra até ao fogo desmedido. [DO VOLUME DYLAN 80. CORSÁRIO-SATÃ. BRASIL. 2021.] DEAREST MR. JONES Passavas os dedos pelo epílio do Banho de Pallas quando o teu cão morreu. Incrédulo, achaste graça na coincidência. Canhim morde, canhim morre. Actéon vai ou vive. Quem decide? A vida, tão real como a literatura, dois grãozinhos cúbicos no café, e a calma. Tu, que curioso leste também, os modernos sabes como importa a apreciação miúda e ínfima das coisas. E apesar de nunca o teres entendido, repete-lo aos amigos, como se te tivesse sido dado pela coalizão secreta dos leitores de poesia o talento invulgar de viver bem. Preparas-te para dormir, um dos polegares sobre os olhos. Como te cansaste. O cão não volta, mas o tempo tampouco cessa. Sonharás com Micenas, H. Schliemann aquela ópera de que gostas tanto, lindo e inquietante tornado de referências. Ah e as tragédias, o destino, os dias comuns ficarão marcados pela minúcia com que dúctil, manuseias os clássicos. Acima das sobrancelhas, com os braços abertos ou sob a pontinha do nariz soberbo. É quando ouves o grande ruído lá fora. Apressas-te até à janela intrigado pelo som crescente. São gritos, libélulas e tambores. Uma estátua que tomba alçada pelo futuro. Não o entendes. Nunca entenderás o furor e o tesão do canto, por que meio mundo enraivecido, algo rancoroso, tão insolente se presta a tais disputas. Afinal, a beleza reparte-se pelos muitos livros no silêncio da tua casa. Que grunhidos podem, enfim haver maiores que a tradição? Adormeces. [DA ANTOLOGIA POETAS CONTEMPORÂNEAS DO BRASIL. BRASIL. 2021.]
USINA NUCLEAR Sobrevivi às tias, ao mar e ao cânone à cantada gutural e seca dos macacos ao disparo do canhão e às mazelas dos gatos. E franzindo a sobrancelha sobrevivi também ao fervor copulativo. Comprei cactos, vassouras, panelas. Sou um erro do sistema, “uma usina nuclear”, disse ele gracejando. Afinal sobrevivi à nação do eterno ontem e em silêncio, corroborei o receio dos inimigos: um grito sem volta. Como sobrevivi, não importa: talvez em silêncio, talvez cantando. Aborrecida, não pude senão, furiosa agarrar-me ao tempo, trepar as costas largas dos deuses. Sobrevivi também ao pater familias e ao braço, inquieto colossal e farto da escrita. Aqui estou entre a tradição e a voz, escrevendo contra um país burro. Impossível na verdade, roçar a língua na palavra lúcida, e responder: como sobrevivi a este braço potente que é a extensão de um corpo teso, quadrúpede dizendo e insistindo, mais do que tudo crendo na bizarrice do poema primo e cintilante? [DA ANTOLOGIA DE POEMAS NÃO É ISTO UM LIVRO. COLÔMBIA. 2020.]
CALEIDOSCÓPIO A suspensão coloidal das nuvens no trânsito. O número de habitantes de Singapura (新加坡共和国, 5 000 000, [114.º]). Estar de joelhos onde acabem as tuas costas. A cor azul dos teus atacadores no tapete da entrada. Uma péssima tradução de Aristóteles. Andar para trás na Pan-American Highway. Como não há semelhanças entre um vinil dos Smiths e um moinho de vento? São ambos processos de fragmentação: please please please let me get what I want Os solavancos homéricos do autocarro nas manhãs onde não beijo ninguém. O crânio dançante das galinhas. Saber que o jazz se ouve de barriga para o ar. O rapaz que me disse aos 6 que eu era uma varanda ensinou-me o que era uma metáfora. A + B = C. Saber quantos fonemas tem a língua portuguesa. Expulsar o gato. Ficar a sós com Schrödinger na caixa. "Só plantará um jardim de cabeça para baixo quem não ler a Historia Plantarum". Naná quem disse. Uma ferida é a interrupção da continuidade do tecido corpóreo. "Nonsense Botany" foi o que escrevi num bilhetinho para Naná. Naná não respondeu. São 31. Se Sócrates sorriu para a morte de dedo em riste, por que não haveria eu de sorrir-te na fila do metro? A primeira nódoa na camisa foi a tua boca. A indecisão do pássaro em afogar-se no charco ou o primeiro salto dos jogos olímpicos. Pintar um quadro numa praia de nudistas. O movimento centrífugo que os mamíferos desenham antes de deitar-se. Aprender que o amor não é um rondó: três couplets, quatro ritornellos, um coração só, A-B-A-C-A-D-A mão no seu lugar: aos ombros te carrego pelos lábios. A tosse pneumática a 15 de novembro. As unhas raspadas. O suicídio do hamster Tobias a 5 de janeiro. Cf. Werther. A minha festa de aniversário de 1999. A tua saia. Tu. O último massacre do Sudeste Asiático, quão caro está o tabaco, o preço da papaia, uma nação nas meias. Ser perpendicular à porta de tua casa. A vermelha, que rodopiava. O lavatório, o queixo. Dois olhos no espelho: girl, girl that I see,/ is there a literary-est mirror than me? UM QUADRO BRANCO SOBRE UM FUNDO BRANCO
Quando Malevich pintava os pássaros eram destinados a rectângulos e as mãos das raparigas a linhas horizontais vermelhas azuis verdes ou amarelas que eram as cores com que Malevich não pintava pássaros ou mãos de raparigas mas a subtração entre os dois. Notável a destreza com que Malevich suspendia o dedo indicador sobre a mesa para dizer Não é mais preciso pintar aquilo que se vê Mas ninguém entendia Malevich e Malevich aborrecia-se. Aspirando à prática das suas considerações Malevich tinha os dois pés sobre um banco quando numa das tardes de 1915 terminou um quadrado preto sobre um fundo branco. Fumava uma cigarrilha e hesitava: Mostrá-lo aos amigos, aos alunos? Expô-lo numa galeria, colocá-lo no museu? Um quadrado preto sobre um fundo branco. Que mais podes querer, Kazimir Malevich? Um quadrado preto sobre um fundo branco. Mas Kazimir Malevich queria mais: um quadro branco sobre um fundo branco. Eriçaram-se em 1918 os cabelos de Malevich perante aquela forma que não era outra coisa senão a eliminação de todas as formas. Malevich pensou: nunca mais pinto um quadro. Aleksandra Ekster pensou: Malevich nunca mais pinta um quadro. Mas Malevich pintou. Muitos esqueceram até o que Malevich disse com o dedo em riste num atelier em Verbovka Resta-lhes apenas a imagem do seu indicador volátil. Alguns juram ainda tê-lo ouvido murmurar em 1935 como se alinhasse a testa com a morte: Então a tua lição, Kazimir Malevich, nunca esteve na eliminação de todas as formas mas na impossibilidade de eliminá-las. Por isso um quadro branco sobre um fundo branco serve unicamente para: 1) redestinar os rectângulos a pássaros 2) abrir as paredes e destrinçar todas as cores 3) entender que o grito antecipa a boca 4) desenhar bocas para o grito 5) isto é, desbocar A PANTUFA
I As nossas enormes pantufas tinham orelhas, bocas e dentes para que desbravássemos o chão, a casa e os pais e suportássemos com um leão nos dedos o frio português As pantufas vendem-se no supermercado, são para crianças (porque os adultos, alguém disse, parecem ridículos com elas) e o seu preço sobe ou desce a partir do quão exótico o animal é. Mas nem todas as pantufas têm a forma de um animal, exótico ou não, e nem todas as crianças têm pantufas, com a forma de um animal ou não. Nós tivemos um par cada um, cuidámo-lo, crescemos e esquecemo-lo como esquecemos o conforto do nosso país, da casa e dos pais por agora desbravarmos outras terras e outros idiomas, estrangeiros, tu e eu sem um leão nos dedos, com algum azar, solidão e brio. II Pantufa vem do francês pantoufle; em inglês diz-se slipper (do verbo to slip, e lembra slippering, que é um castigo a chicotadas, reguadas ou chineladas. Atroz, absoluto). Pantufla, do espanhol, tem entre as fonéticas a mais cheia e confortável: como devem ser de resto as próprias pantufas inventadas ninguém sabe ao certo por quem nem quando e onde. Este, Oeste, século XII. Regalia certamente de poucos cobiçada talvez por alguns e desconhecida de muitos, a pantufa mais antiga do que o astrolábio, existe há tanto tempo como a bússola e há quase tanto tempo como a ambulância. A pantufa não consta entre os objetos que se levariam hipoteticamente para uma ilha deserta. A pantufa não salva nem alimenta. Aquece. E como qualquer objeto III foi adquirindo ao longo do tempo novas funções e feitios. No século XXI a pantufa é usada nos desertos dos Estados Unidos: El Paso, Arizona ou San Diego. Feita à medida de todos os sapatos indocumentados a pantufa, vendida por mexicanos a mexicanos, cobre as pegadas dos que, numa mão, carregam os filhos e na outra a garrafa de água. A garrafa de água, forrada com fita-cola, afasta o sol; evita também o reflexo do sol no plástico e o disparo de uma AR-15. Não parecem ridículos os indocumentados ao longo da fronteira. A pantufa, maciça e multiplicada prediz o número de corpos desaparecidos. As famílias dos mortos jamais recebem de volta as pantufas. Há por isso quem, além das garrafas forradas colecione pantufas perto de onde os indocumentados e as indocumentadas tombam. O debate entre os artistas estadunidenses que trabalham com pantufas e garrafas é essencialmente estético e inútil: limpar ou não a pantufa antes de colocá-la no museu? Mas não há nenhuma estética na pantufa, maciça e multiplicada ao longo da fronteira nos pés dos indocumentados. Não há estética onde não há Deus. [POEMA PUBLICADO NA CAPIVARA CULTURAL. BRASIL. 2020.] PEQUENA TRAPAÇA ENGENHOSA
Obedeço aos impostos anuais e às instituições onde ensino poesia, desaprendendo a pátria, o belo, o cânone e a praxe. Sou uma mulher leal, ordinária e tenho alguma dificuldade em posicionar-me verticalmente no hábito e na prática. Obedeço à respiração, ao sol e cada vez mais ao cansaço dos dias úteis, reconhecendo a luz e a beleza espontânea que há em inspirar e expirar, tremendo, uma e outra vez até à morte, ao sonho e à memória. Sou um rapaz terno que obedece às regras de segurança e tédio dos aeroportos à gravidade, à visão, à escuta. Deposito no verso o sopro do que vejo e escuto, e escrevo de cabeça erguida, ouvido voltado para a reverberação do grande mundo reprimido. Obedeço ao poema, que é o silêncio em fala, a curvatura do meu corpo até ao chão, noventa graus um pouco tortos e interessam-me os tortos, o mundo coxo. Vou de orelha encostada às nossas mães e avós, de olho e retina aguçados sobrevoando a história total. Interessam-me o estudo aéreo e o rigor panorâmico das aves. Sou uma galinha, descendo do antigo quetzalcoatlus e ataco, visceral e gorda, o antigo e masculino consórcio dos deuses. O poema é um tijolo alado. Obedeço sobretudo ao amor, aos semáforos e aos sinais de rua. Um assegura os outros, os outros asseguram o amor. A carne interessa-me também, como me interessam os sismos, a dor as mãos e as correntes de água. Trepo o diospireiro da casa com o único propósito de comer. Caio, ascendo e incendeio o jardim. Sou uma menina muito delicada e é com delicadeza que projeto o poema monstruoso, como um ralo no Pacífico e logo adormeço. Nasci para exercer o feminino e o atómico. |
[PEIXE-BOI. BRASIL. 2025.]
E canto. Hei de morrer por certo cantando para ti, e temo que me aches pouco, mas sou como o longe vira perto e à beira pertinho tão pouco quanto imenso. Como dizê-lo? Pude ver entre o peso da enxada e a sebenta a beleza do daninho. E sou daninha, ou pedra arremessada, terra por lavrar, um copo de vinho impróprio, e o próprio arremesso. Peço, e talvez não deva eu pedi-lo, mas ainda assim peço-te que encontres dentro dos meus olhos a vergonha dos olhos delas. Conto, e talvez não to deva contar mas conto-to ainda assim a despir-me inteira que até a tristeza sonha. E sonho infinitamente. Sou a primeira. Duvido, duvido muitíssimo da subida, e patino atabalhoadamente no amor. Agarras-me pelos braços. Sorrio-te em câmara lenta. Por que susténs o torto por que amas tão insistentemente a minha falta de dança? Aperto-te sem cair, não sei os passos onde ponho os pés? Que angústia. Perdoa-me se te calco. Há muito que eu não era eu. [QUATRO CINCO UM. FOLHA DE S. PAULO. BRASIL. 2022.]
PAELLA Cortando os tomates do almoço solarengo de domingo que a mãe lhe ensinou a cozinhar sob a asa e os risos de San Juan, para onde a dona Guadalupe se mudou depois de o marido morrer há cinco compridos anos e onde frequentou, às sextas, um curso grátis de escrita poética, não a outra, porque sempre lhe interessaram mais do que os romancistas, os poetas, que lançam como ela dizia, palavras para a sombra e ficam à espera não se sabe exatamente de quê, de quem, não houvesse valor na escuridão, e onde aprendeu sobre translações totalidade, a beleza do inútil miúdo, que a poesia diz o que ela diz dizendo e que ela é, sem prerrogativas o contrário do que todas as pessoas acham que ela é como um bastão invisível pronto a acertar nos ausentes e operacionais, Mariana bagunça depressa os cabelos e pergunta: — Achas que vale a pena escrever um livro de poemas? Sacudidos os dedos, Maíra começa por cortar o pimentão vermelho, e pensa sem demoras no último livro que leu de Rosario Castellanos, recomendado, há alguns meses por uma amiga de infância, e como gostou também e muito, de Juana de Ibarbourou, como não se esqueceu por vê-la tantas vezes em todos os lugares, da sua rosa vertical e branca, furando discretamente o movimento da própria continuidade, materializando, desse modo a palavra, tão robusta como um martelo especulativo tão reluzente e encarnada como esta verdura, curioso aliás, como tudo continua existindo apesar do mundo grosseiro e implacável, da superfície, e o canto grande o que é exatamente o canto grande senão a insistência em reinventar a vida, os pés sobre a terra, e a terra sobre ambas as mãos, até que se endireita, suspira e responde: — Acho que não. Já há muitos. [LÍNGUA LUGAR. SUÍÇA. 2021.]
MANUAL PARA DECAPITAR HERÓIS Achega-te, inala e corta, tal a machadada no que suporta o busto, que quando a cabeça caia te sobre ainda tempo para o entulho. Começa por baixo, no sentido que mais te aprouver e não te assustes, porque há na cesura o encontro com as partes. O que desaba não é a tradição mas o fabrico do passado. Cerceia a eito o monstro pela raiz e, caso eles te cuspam adianta, arreganhando os dentes, a mordidela. Se te faltar força, descansa o braço, repousa o olho com que escutas o princípio. E de volta ao dispor ambos os pés sobre as arestas do pedestal tem cautela. Não é a tradição que desaba, ou a lisura mas é muito o que descamba. Há quantas palavras afinal, firmaram eles as pautas e a praxe? Agora que deste a espalda à peleja e o coração à demanda, percebes como o golpe prediz a borda vária e desconhecida, da máquina, que à máquina sucederão a boca e as línguas, o gesto e os corpos em meia-luz. Ao desígnio da invenção seguirá por seu turno, a vida. E, como um susto, a vida não se prevê. Cabeleiras, grinaldas e dorsos rolarão porque à história agradam as piruetas, para o museu das coisas amorfas. Augúrios de lado, o canto faz-se de ouvido pregado à terra. Verga-te, por isso, até à oscilação vaga e firme do achado. Aprende tão perto da morte, a toada circular do recomeço e escuta como, ao tombo estirado dos gigantes de pedra despontam plantas e grilos num reino de calhaus. Se falassem, em que tempo do tempo lhes falarias? [SUDOESTE. ESPANHA. 2021.]
POÉTICA ZAROLHA Dedico-me ao verbo e à navalha com que não aparo os pêlos filosóficos (apesar de saber como os usavam cínicos, estoicos e peripatéticos) e com que relutante disseco a tradição o cascalho, a anatomia canónica. Repouso a faca sobre as duas pernas e falta-me a paciência, a saúde sintática. O poema é o poema será ora esta vontade de duas coisas ora a reserva com que me encolho e recolho. A mudez voluntária do indicador alado, que dá voltas projetando a forma: aperfeiçoar o que se torce e contorce, o dorso truncado, teso, ante a sentença crítica, as listas, a santíssima trindade. Contornar o aborrecido estado das coisas, benzer o feio. Eva Maria, cheia de graça, mãe Irmã, avó, abençoai-nos. Amen. Parar aqui ou adiante, entoando o canto empenhado, engasgado suado. Preocupa-me sobretudo a palavra zarolha, anamórfica. [PATTI SMITH 75. CORSÁRIO-SATÃ. BRASIL. 2021.]
PATTI, REDONDO BEACH DESERVES A POEM foi o que disseste com o dedo apontado à curiosidade do meu nariz. A certeza do canto, prescrita acima das ondas, diz muito sobre o ofício. Há que ficar calada diante do mar e não há como ficar calada diante do mar. Há que cortar a mão, tamanha a irrelevância do roubo, e não há como cortá-la. Que o ofício é mais e menos do que as águas certamente mais e menos do que os nossos pés soterrados no areal e, como o amor, nos convida a trilhar antes de abater-nos como macucos, o aroma dos deuses. Só nós ouvimos o canto, só nós sabemos cantar com ruído e pirraça, o que mais importa. O nada ou a dificuldade em fitá-lo. E Redondo Beach. Os deuses não costumam visitar Redondo Beach. Não comerão elotes nem huaraches no Domínguez Park. Não conhecerão LeeAnn nem as suas bitocas aéreas. Fartos e grandes, decerto estarão agora sentados no tempo suspenso desta narrativa, rindo de mim colgada pelo faro à pontaria do teu indicador travesso Esgrimista profusa em estocadas, bela pirata de South Bay qual bruxa hemisférica, tal a zanga da cobra acirrada de boca tão aguçada quanto um piquete Will you write it, or not? [DO VOLUME DYLAN 80. CORSÁRIO-SATÃ. BRASIL. 2021.] AXÉ, MUNDO Foi com as mãos curtas e besuntadas que agarrámos a juventude. Ariscos propensos ao tombo, lambíamos com pressa e língua, o amor e os quadris. O que julgávamos ser o amor, pisava: bota imunda, grosseira, tão enorme surra. Não sabíamos, não era tempo que o corpo endura e sói reinventar-se esplêndido, como um animal liberto. Tampouco imaginávamos que, então moído, o coração se dilataria como uma praia. E depois vieram o golpe, um bramido de sereia, aliciante, brutal, e a febre. De nada nos valeram as tisanas, sequer o intelecto a poucos, esparsos metros da desgraça. A carne chupava-se toda sem soluçar, até ao tutano. Muito rápido viramos carcaça, um traste sem forma e bracejando, numa briga cortante e acesa com a ruindade, perdemos a mão e a vara. Quanto pavor da apressada bagunça, da burla, do irreparável fracasso apontado à garganta. Foi quando cedemos. A queda pela manhã. Não sabíamos, não tínhamos como saber que o amor, rasteiro e simples, aplacava a fome, que mais tarde o aprenderíamos como aprendemos o verbo. E a obstinada triste perna, estremecendo ao tropeçar não deixou de conduzir este braço que surgido da tal escuridão, quis acenar cinicamente ao mundo. Axé, mundo quantas manhas mais me trarás ainda? E o mundo soprou até à casa de onde sorríamos. Foi quando cantámos. A gentil melodia a abrir-se toda como ondas às palavras colhendo umas, rechaçando outras, a vida estirando-se ao sol, comprida, e o corpo ao redor dela, a pô-la no regaço. Afinal a alegria, que chega inteira, não esmaga. O canto, essa violência afetuosa, crescerá e eu crescerei, dançando só, ao tactear às escuras a vida no verso designado e ardente. Noto como caibo e entro, enfim no fazer e na solidão. E é então que compreendo. [LOTE. PORTUGAL. 2021.] EM TORNO DO PLANO FOCAL __________________________Para escribir estas líneas debo cerrar los ojos, __________________________y echar los hombros hacía atrás. ________________________________________________________Cecilia Pavón I Depois do gesto solto o galo canta na ágora ágil mesmo nu Miguel cruza as pernas sobrepondo o joelho do meio-dia a uma das patas O aceno à licença Ter mãos para isto e para ele na tarde aberta em palmeiras sinópticas onde o escrutino, terno e simples de cabelos anelados e cinéreos até que pelado Miguel se levanta subindo para um dos mindinhos do deus e num crescendo de sol me olha de volta Depressa me reconhece pois que língua poderia ter cantado o galo, senão esta minha? Foi há séculos atrás que me mirou Querida poeta (e tudo) com os olhos dispostos ao longo do beiral, de tudo e nada sabendo, como um tronco ao alto na aldeia pagã Um novo punho escrevente para a reinvenção do alfabeto II Miguel toca com a testa radiante a espalda do verbo intransitivo e medindo a costura para o corpo oferece o início -- Depois, a linguagem Daninha, sinuosa, tão incorrupta como o sobressalto, ela é o fim e o começo do espanto. Depondo a fala nas coisas, modela, severa como um clarão, todos os nomes Mais tarde, a escrita A descrebilização do gesto é (também) o fim do corpo nu Êh selvagem êh e por isso Miguel se descobre insinuando a vida, o batimento primitivo do coração, ao som dos cães que tagarelam sacudindo as caudas, o propósito, as regras E então o poema O ato de furtar e o próprio furto A plena recusa de tudo, e o nada depositando o caos sobre o eixo oratório. Revérberos, a mancha e a dicção verbais. Tão e afinal um soco bruto, investida pontuda que golpeia o longe desmedido e ao longe faz o morto e a verdade O poema ainda Miguel é um pugilista das coisas invisíveis, e é quando se volteia tímido, para ver-me que lhe dou a mão anfíbia — sabe que vem Somos duas sombras de esplendor Em frente, a ribanceira [DOIS TEXTOS PUBLICADOS NA REVISTA TXON. CABO-VERDE. 2020.] A MÍMICA DAS ONÇAS
Os ameríndios não se moviam como os europeus, porque tinham o poder de ser onças. Onçar. Isto incomodava muito os europeus, que caminhavam de um modo sério e estreito. Mas o que incomodava mais os colonos era o silêncio dos ameríndios, que, por terem superpoderes, dispensavam as palavras e sobretudo a escrita. Imitavam, além disso, o modo como os europeus se moviam, porque a artificialidade do movimento, tão distante da destreza animal, lhes parecia muito engraçada. Não havia como responder à mímica das onças, porque a um exercício mímico deve responder-se sempre, como numa breakdance battle, com outro exercício mímico. E os europeus só conheciam as palavras. O exercício mímico vence, de resto, o exercício oratório. Foi por esta razão que o gesto concreto de Diógenes, que soltou um galo na ágora, ultrapassou a ideia comparativa de Platão. Foi também por esta razão que a arte da performance nasceu nas Américas. E é também por esta razão que o humor é uma forma de violência. A MÃO DEFORMADA A mão deformada escreve o poema A mão deformada apaga o poema A mão deformada reescreve o poema A mão deformada guarda, discreta e por tempo indefinido, o poema. A mão deformada descreve o poema A mão deformada edita o poema A mão deformada publica o poema A mão deformada vende o poema A mão deformada compra o poema A mão deformada interpreta o poema aventurando-se, de bic azul em punho nos lares semióticos, sintáticos, táticos agramáticos, bióticos, visuais e exóticos da palavra infernal. “Ali está, e grunhe horrivelmente”. A mão não se detém. A mão deformada aperta o poema A mão deformada sublinha o poema A mão deformada analisa o poema A mão deformada inspeciona o poema abafa-o, sobrevaloriza-o, vira sobre ele café ou vinho, uma mancha eclética. A mão deformada categoriza o poema A mão deformada define o poema A mão deformada parodia o poema escrevendo outro poema, rasga-o come-o, faz dele um aviãozinho e se tiver mais arte, um barquito, pato cisne ou workshop gratuito de origami. A mão deformada complica o poema A mão deformada teoriza o poema A mão deformada compara o poema a um filme tardio de Federico Fellini ou a uma maçã fuji em decomposição. A mão deformada disseca o poema A mão deformada transcreve o poema A mão deformada parafraseia o poema A mão deformada desemprega o poema e a poeta, que são no fundo muito úteis pois o que ocuparia a mão deformada senão o poema, a poeta e a inutilidade dos três? O machado afiado do talhante ou a agulha de mão do senhor alfaiate? A mão deformada costura o poema A mão deformada defende que o poema é feminista, machista, queer, colonial trans, homofóbico, fascista e (suponho que também) ecológico, ilógico, racial e (suponho que tudo, menos) classista. A mão deformada mastiga o poema A mão deformada rasura o poema A mão deformada incendeia o poema A mão deformada reescreve o poema recomeçando assim o círculo milenar de todas as mãos deformadas, até que num dia solarengo como outro qualquer a mão deformada, que é como qualquer outra mão, morre. E depois de cremada e depositada nas águas pelos discípulos vem substitui-la, com a mesma certeza penetrante e magra, outra mão deformada. |