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IDONTSELLMYSELF (above) Visual poem. US 2025 Paperboard. 29,7 x 42 cm (below) Audiovisual poem. US 2025 PHOTO Brazilian Federal Police TEXT Augusto de Campos TRANSLATION, VOICE, MUSIC & DESIGN Patrícia Lino AUGUSTO DE CAMPOS. NÃOMEVENDO.1988. O intuito de um poema como “Nãomevendo”, um dos “Despoemas” de Despoesia (1994), é, mais do que estético, representativo de um percurso poético-artístico marcado pela coerência do seu posicionamento político. Também por isto, este não-anúncio à capitalização da poesia, que apropria a estrutura regular de um anúncio comercial, encerrou a resposta que Augusto deu em 2016 a Ferreira Gullar por ocasião da última controvérsia entre ambos [1]. “Nãomevendo” pode ser incluído na série de quadradogramas que Augusto vem fazendo até hoje com certa regularidade, conforme, para citar alguns casos análogos, “Afazer” (1982), “Poesia” (1988), “Não” (1990), os mais recentes “O inesperado” (2017-2019) e “Doublet para Lula” (2018), e “Cubograma” (1960-62), o que, a meu ver, está na origem da sequência quadrática. Partilha, além disso, o desenho tipográfico com “Coraçãocabeça” (1980), “Dizer” (1983) ou com os já mencionados “afazer” e “poesia” que, estrategicamente escolhido, vem garantir, sobretudo com base na sua latitude, a quadratura da composição. Em “Afazer”, por exemplo, o texto compreende, sem espaçamentos, trinta e quatro caracteres (“excessodeexserpoesiaafazerdeafasia”). Augusto começa por dispor o texto do seguinte modo, abrindo dois espaços respetivamente nos versos três e quatro, com o objetivo de contornar a divisão de trinta e quatro em dezessete ou em dois. E são justamente as qualidades da tipografia que lhe permitem desenhar, mais tarde, um quadrado. A montagem de “Nãomevendo” segue a mesma lógica. Augusto começa por dispor os trinta caracteres assim, evitando a divisão do slogan em três (“não me vendo/ não se venda/ não se vende”), com o propósito de criar, uma vez mais, um quadrado. Tão intacto quanto indisputável, o quadrado impõe à leitora a ideia, bem como a sensação, de totalidade. Assim como não há nada a ser acrescentado, tampouco há a ser excluído. [1] “Nego-lhes [à Academia Brasileira de Letras] autoridade para conferir prêmios e prebendas. E encerro com as palavras de um poema instrutivo e fácil de entender: NÃO ME VENDO / NÃO SE VENDA / NÃO SE VENDE”, “Um neocordeiro superconcreto e um expremio”, Folha de S. Paulo, 2 de julho de 2016, s/p. Para ler sobre o episódio em detalhe, recomendo a leitura de “Ferreira Gullar e seu último combate” de Eleonora Ziller Camenietzki, publicado na revista Texto Poético, v. 13, n. 23, Universidade Federal de Góias, julho-dezembro 2017, pp. 430-447. Patrícia Lino. NÃOMEVENDO, (1988), QUADRADO MÁGICO ANTICAPITALISTA.
IMPERATIVA ENSAÍSTICA DIABÓLICA. INFRALEITURAS DA POESIA EXPANDIDA BRASILEIRA. 2024.
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AuthorPatrícia Lino is a poet, an essayist, a performer, a translator and Associate Professor of poetry and visual arts at UCLA. Archives
October 2025
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