PATRICIA LINO
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​Պոեզիա

8/31/2025

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Passo religiosamente junto ao pequeno negócio de um dos únicos alfaiates em Los Angeles. Tão religiosamente que, com o entusiasmo devido, trocamos, sem o debater, o silêncio da familiaridade pelo costume de um aceno meio atrapalhado e algo retraído.

Até eu precisar de fazer a bainha de um novo par de calças.

Como eu, Gary não é de cá. Pergunto-lhe de onde veio há 35 anos. Arménia. Portugal. Gary aponta para o vestiário. Precisa de tirar medidas comigo dentro das calças. De calças postas, subo a um banquinho e Gary, de cócoras, lança a questão que eu antecipara: o que faço nesta enorme cidade. Ensino poesia. Po-e-try?, repete intrigadíssimo. É quando me volteio, ainda sobre o banquinho, para repetir com ele — poetry; e acrescento: poems, you know. Gary levanta-se. Está pensando. E já atrás do balcão, anotando com firmeza os números num caderno verde, diz: não sei o que é poesia.

O que poderia gerar um desencontro epistemológico de natureza imperscrutável ou, no mínimo, algum constrangimento, se eu e Gary não tivéssemos humor. Não sei como dizer poetry em arménio e Gary pede-me que soletre a palavra. Anota as letras num papelinho enquanto as pronuncio e abana, agora com mais determinação, a cabeça: I don’t know what poetry is. Eu rio. Neither do I. Ele ri também.
 
Gary informa-me que as calças ficarão prontas amanhã. Assino um papel. Pago depois. E chego à rua a pensar.
 
Não é maravilhoso que o que acaba de acontecer seja a resposta que não dei, não é maravilhoso que eu ande fazendo bem o meu trabalho.
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‹‹INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS CLÁSSICOS››

8/27/2025

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[O início da minha futura aula, OS ARTISTAS TAMBÉM DÃO AULAS, sobre a palestra-performance]
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ALFRED JOHN CHURCH. 1911.
Acho que se chamava assim. ‹‹Introdução aos estudos clássicos››. Uma das primeiras aulas que fiz como estudante da licenciatura em Clássicas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, ao contrário da maioria das aulas que cursava, uma cadeira obrigatória para todos os estudantes de literatura em português. Lotada, portanto, de gente contrariada.
 
A tarefa do professor era, no mínimo, difícil: convencer um bando de adolescentes tardios a ler Homero ou, pelo menos, e mais realisticamente, algumas passagens da Ilíada.
 
Quem leu Homero está a par das especificidades da dimensão narrativa dos seus dois livros. Muitas vezes ou quase sempre, ela não obedece, como desejaria o leitor mais acomodado, à linearidade porque, à semelhança dos textos que circulavam durante o período arcaico, os poemas homéricos aconteceram primeiro na fala e só mais tarde viraram escrita. Homero é mais aquele ou aqueles que os registaram do que aquele ou aqueles que os diziam em público.
 
Ou todos eles ao mesmo tempo.
 
A não-linearidade homérica equivale, em termos narrativos, ao corte temporário, porém constante, da história ou, por outras palavras, à possibilidade de, em meio à luta desgovernada entre Ájax e um guerreiro troiano, se sobrepor, com toda a naturalidade, uma discussão conjugal entre Hera e Zeus. E logo depois, Ájax esmurrando a cabeça do troiano. E logo depois, Hera acusando Zeus de outro deslize e logo depois, o troiano socando o estômago de Ájax.
 
Como convencer, então, dezenas de jovens a lerem um objeto literário que, além de concentrar inúmeras referências mitológicas que eles não dominam, muda consecutivamente de assunto e se assemelha, por isso, à bagunça esperada das coisas e da vida? E que, pela sua potencialidade teatral, sustentava o entretenimento das massas na Grécia Antiga.

(Você não sabia? Digo sempre aos meus estudantes que Homero era, com toda a certeza, a telenovela daqueles dias.)
 
Mas, voltando ao ponto que me interessa, como? O meu professor, Jorge Deserto, tinha a resposta. Assim como lia entusiasticamente as passagens que nos queria mostrar, subindo e descendo o tom, transformando-o emocionalmente, Jorge também performava a surpresa das quebras narrativas ao ir de um lado para o outro da sala de aula. Um dos lados correspondia a mais uma bulha em que se metera Ájax. O outro a mais uma mentira de Zeus.
 
Não terminava, contudo, aqui. Sempre que um dos episódios cessava por um ou mais minutos, Jorge fingia estar congelado. Jorge, que era então Ájax, congelava o movimento de um futuro golpe certeiro na bochecha do troiano. Corria depois para o outro lado da sala e, mimicando Hera, ralhava com um Zeus invisível. Como Zeus, congelava o gesto atrapalhado de quem foi apanhado em flagrante. E assim por diante.
 
Ninguém passava indiferente. Nem à aula nem à Ilíada.
 
E talvez a semente do que é ou poderá ser a palestra-performance resida precisamente ali: no humor, na sensibilidade e no atrevimento de Jorge que, apesar de inserido no contexto tradicionalíssimo da academia portuguesa, nos ensinava que Homero era — quem diria — divertido. Muito mais divertido, de resto, do que muitos autores contemporâneos. E seguramente muito mais contemporâneo do que os próprios contemporâneos.

E aqui: no encanto como método pedagógico.
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    Author

    Patrícia Lino is a poet, an essayist, a performer, a translator and Associate Professor of poetry and visual arts at UCLA.

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    October 2025
    September 2025
    August 2025

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​​© LINO. 2026.
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