|
Passo religiosamente junto ao pequeno negócio de um dos únicos alfaiates em Los Angeles. Tão religiosamente que, com o entusiasmo devido, trocamos, sem o debater, o silêncio da familiaridade pelo costume de um aceno meio atrapalhado e algo retraído.
Até eu precisar de fazer a bainha de um novo par de calças. Como eu, Gary não é de cá. Pergunto-lhe de onde veio há 35 anos. Arménia. Portugal. Gary aponta para o vestiário. Precisa de tirar medidas comigo dentro das calças. De calças postas, subo a um banquinho e Gary, de cócoras, lança a questão que eu antecipara: o que faço nesta enorme cidade. Ensino poesia. Po-e-try?, repete intrigadíssimo. É quando me volteio, ainda sobre o banquinho, para repetir com ele — poetry; e acrescento: poems, you know. Gary levanta-se. Está pensando. E já atrás do balcão, anotando com firmeza os números num caderno verde, diz: não sei o que é poesia. O que poderia gerar um desencontro epistemológico de natureza imperscrutável ou, no mínimo, algum constrangimento, se eu e Gary não tivéssemos humor. Não sei como dizer poetry em arménio e Gary pede-me que soletre a palavra. Anota as letras num papelinho enquanto as pronuncio e abana, agora com mais determinação, a cabeça: I don’t know what poetry is. Eu rio. Neither do I. Ele ri também. Gary informa-me que as calças ficarão prontas amanhã. Assino um papel. Pago depois. E chego à rua a pensar. Não é maravilhoso que o que acaba de acontecer seja a resposta que não dei, não é maravilhoso que eu ande fazendo bem o meu trabalho.
0 Comments
Leave a Reply. |
AuthorPatrícia Lino is a poet, an essayist, a performer, a translator and Associate Professor of poetry and visual arts at UCLA. Archives
October 2025
Categories |